28 October 2012

O LIVRE ARBÍTRIO - FREE WILL


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Os primeiros Cristãos creram firmemente no livre arbítrio. Por exemplo, Justino propôs o seguinte argumento aos romanos: "Aprendemos dos profetas, e o afirmamos nós, que os corretivos, os castigos e os galardões se medem conforme ao mérito dos atos de cada um. Se tudo sucedesse só por sorte e não tivesse nada a nosso poder, um homem que escolhesse o bem e outro o mal, o primeiro não mereceria o louvor nem o segundo a culpa.

Se os homens não tivessem o poder de evitar o mau e de escolher o bem segundo sua própria vontade, não seriam responsáveis por seus atos, fossem bons ou maus; porque o homem não seria merecedor de recompensa ou louvor se ele mesmo não escolhesse o bem, ou se só fosse criado para fazer o bem. Do mesmo modo, se um homem for mau, não mereceria o castigo, pois só seria capaz de fazer o que foi criado para fazer".

Os primeiros Cristãos não acreditavam no livre arbítrio sem base, porque se basearam firmemente nas seguintes palavras das Escrituras, e em outras semelhantes: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia, porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. O Céu e a Terra tomo hoje por testemunhas contra ti, de que te pus diante da vida e da morte, da bênção e da maldição, escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência".

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Clemente escreveu de semelhante maneira: "Nem louvor nem condenação, nem recompensa nem castigo, seria justo se o homem não tivesse o poder de escolher o bem e evitar o mal, se o pecado fosse involuntário".

Arquelao escrevendo poucos anos depois, disse o mesmo: "Toda a criação, Deus a fez muito bem. E ele deu a cada pessoa o poder do livre arbítrio, e pela mesma norma instituiu a lei de juízo. E por certo todos que queiram podem guardar seus mandamentos. Mas o que os despreza e se volta na contramão deles, sem dúvida alguma terá que defrontar a essa lei do juízo. Não cabe dúvida de que cada pessoa, utilizando o poder de seu livre arbítrio, pode fixar seu caminho na direção que ele queira".

Metódio, um mártir Cristão, que viveu cerca dos fins do terceiro século, escreveu de semelhante maneira: "Aqueles, os pagãos, que decidem que o homem não tem livre arbítrio, afirmam que se governa pelas disposições inevitáveis da sorte, e são culpados de impiedade ante o mesmo Deus, já que lhe fazem a causa e o autor das maldades humanas".

Assim também  escreveu Orígenes: "Uma das doutrinas ensinadas pela igreja é a do juízo justo de Deus e este fato estimula aos que acreditam Nele, para que vivam piedosamente e que evitem o pecado. O que nos traz louvor ou culpa está dentro de nosso poder, é nossa responsabilidade viver em justiça. Deus exige isto de nós não como se dependêssemos Dele, nem de outro, nem da sorte, mas como se dependesse de nós mesmos".

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O profeta Miqueias demonstrou isso quando disse: "Ele te declarou o que é bom, e o que o Senhor requer de ti, que pratiques a justiça, ames a benevolência e ande humildemente com o teu Deus". Moisés também disse: "Vê que hoje te pus diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. Escolhe, pois, a vida para que vivas, tu e a tua descendência".

Já que sabemos que Deus é tanto bom quanto justo, vejamos como o Deus bom e justo pôde endurecer o coração do Faraó. Talvez por um exemplo usado pelo Apóstolo na epístola aos Hebreus podemos ver que, numa só obra, Deus pode mostrar misericórdia a um homem enquanto endurece a outro, sem a intenção de endurecê-lo.

Pois a terra que embebe a chuva que cai muitas vezes sobre ela e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção da parte de Deus, mas se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição, o seu fim é ser queimada. Talvez nos pareça raro que aquele que produz a chuva dissesse: "Produzo tanto os frutos como também os espinhos da Terra".

Mas, ainda que raro, é verdadeiro. Se não tivesse chuva, não teria nem frutos nem espinhos. A bênção da chuva, portanto, caiu ainda sobre a terra improdutiva. Mas já que estava descuidada e não cultivada, produziu espinhos. Desta maneira as obras maravilhosas de Deus são semelhantes às chuvas, os resultados opostos são semelhantes às terras cultivadas ou descuidadas.

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Também as obras de Deus são semelhantes ao sol, o qual se pudesse dizer: "Eu faço o suave e faço o endurecer". Ainda que estas ações sejam opostas, o sol não "falaria" mentira, porque o calor que suaviza a cera é o mesmo que endurece o lodo. De semelhante maneira, por uma parte, os milagres feitos pela mão de Moisés endureceram a Faraó por causa da maldade de seu coração. Mas suavizaram à multidão egípcia, que saiu de Egito com os hebreus.

Como se falasse da agricultura, Paulo diz: "Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento. De modo que nem o que se planta é alguma coisa, nem o que se rega, mas Deus, que dá o crescimento".

Agora podemos dizer com razão que a colheita do agricultor não é trabalho só do agricultor. Também não é trabalho só da rega. Afinal de contas, é trabalho de Deus. Assim mesmo, não é que não tenhamos nada que fazer para que nos desenvolvamos espiritualmente à perfeição. Contudo, não é obra só nossa, porque Deus tem uma obra ainda maior que a nossa.

Assim é em nossa Salvação. A parte que faz Deus é muitíssimo maior do que a nossa. Ainda que não acreditassem na predestinação, os primeiros Cristãos creram fortemente na soberania de Deus e em sua habilidade de prever o futuro: viram que há uma grande diferença entre o prever e causar.

Estes cristãos entenderam que as profecias de Deus a respeito de Jacó e Esaú resultaram desta habilidade de prever o futuro e não de uma predestinação arbitrária dos homens a uma sorte fixa. 


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